Fichamento Vitoria Nathalia

Atualizado: 29 de abr. de 2019
Estudo psicanalítico das relações entre depressões neuróticas e desejo: aproximações possíveis.
INTRODUÇÃO
A depressão tornou-se evidentemente uma das maiores expressões do sofrimento psíquico na contemporaneidade, tendo sido classificada como “a epidemia psíquica das sociedades democráticas” .sintoma social privilegiado na cultura do final do século XX e início do XXI expressão de sofrimento e denúncia de grandeza comparada apenas à histeria do século XIX doença do discurso capitalista e metáfora do mal-estar na contemporaneidade
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2020 a depressão será a maior causa de incapacitação, sendo considerada mais prejudicial que angina, artrite, asma e diabetes, com a perspectiva de que em 2030 será a doença mais frequente no mundo. Esse alarme tem sido feito na mídia de maneira geral, em jornais de grande circulação e revistas científicas de diversas áreas da saúde e ciências humanas. Que o homem contemporâneo sofre de um mal-estar generalizado que o abate, desanima e paralisa, não parece passar despercebido por quase ninguém.
O problema desta categoria de sofrimento não é privilégio da depressão e, sim, característica da forma como se organizam e se produzem as nosografias presentes nesses manuais e que norteiam o diagnóstico e tratamento do sofrimento no campo da saúde mental. O primeiro elemento discrepante na utilização desses manuais é o fato de serem estatísticos. Afora isso, as classificações contidas são arbitrariamente definidas pelo agrupamento de traços presentes em diferentes pessoas e condições, sem ênfase sobre a etiologia. Então, o DSM-3 surgiu na década de 80, com o intuito de criar um sistema meramente descritivo, sem compromisso com qualquer teoria psicopatológica, uma classificação convencional, normativa e arbitrária. Daí em diante, produziu-se um inchaço das nosografias presentes nos manuais, que só tende a crescer: o DSM-5 conta com aproximadamente 300 categorias de patologias mentais; o DSM-3 tinha 265 e o DSM-2 apenas 182.
A classificação da depressão como uma entidade clínica única não cabe no arcabouço teórico da psicanálise. Uma vez que seus sintomas ou fenômenos podem ser localizados numa variedade de diagnósticos, o quadro nos obriga a partir na direção que vai dos fenômenos às suas possíveis causações internas, considerando o funcionamento do aparato psíquico. Assim, nesta perspectiva, a depressão, no singular, não existe. Embora, portanto, não seja possível enquadrá-la numa categoria única, autores afirmam que os quadros responsáveis por engordar as estatísticas da depressão são frequentemente constituídos por neuróticos, enquanto as estatísticas de quadros psicóticos pelo mundo permanecem quase inalteradas; Isso nos faz pensar que o grande contingente de deprimidos provenha do campo da neurose na atualidade, o que justifica o interesse em nossa pesquisa pelos deprimidos inseridos no campo da neurose.
Esses neuróticos, deprimidos, o que se passa com eles? Apatia, desânimo, falta de apetite, problemas com o sono, impotência sexual, poucas palavras, falta de sentido, dor de viver, falta de fantasias que sustentem as visões de futuro, sensação de que o tempo que não passa, anulação do desejo, fatalismo, transtornos da imaginação etc. O quadro é extenso, mas cremos que pode ser resumido numa deflação libidinal do sujeito consequentemente, uma queda na sua capacidade de desejar e/ou de articular seu desejo às coisas do mundo: trabalho, relacionamentos e arte, entre outras.
Desejo e aparelho psíquico em Freud.
Encontramos no Projeto e na Interpretação dos sonhos, a construção de uma ficção teórica - assim Freud a nomeia - denominada aparelho psíquico. Este aparelho funciona primariamente sob o mecanismo reflexo, ou seja, mecanismo que segue o princípio do prazer, buscando eliminar quantidades incômodas de energia que se acumulam ou atingem o organismo vivo. No entanto, afirma Freud, “as exigências da vida interferem nessa função simples, e é também a elas que o aparelho deve o ímpeto para seu desenvolvimento posterior”
As exigências da vida citadas por Freud são essencialmente aquelas advindas do interior do corpo e das necessidades vitais. No texto clássico sobre as pulsões, Pulsões e Destinos da Pulsão , observamos que estas constituem uma força constante, proveniente do interior do corpo, que irrita o aparato psíquico fazendo com que se busque alcançar a via da descarga a qualquer custo (de acordo com o princípio do prazer). No entanto, se, para os estímulos do exterior, o organismo vivo se serve do mecanismo reflexo, ele não tem recursos para lidar com os estímulos internos e constantes. Isso só será possível quando esse mecanismo se tornar mais complexo, levando Freud a afirmar que os verdadeiros motores do desenvolvimento de nosso sistema nervoso e mental são as pulsões. A pulsão enquanto força constante, cuja fonte é endógena, convoca um trabalho psíquico frente à inabilidade do mecanismo reflexo de lidar com ela, exigindo trabalho ao psíquico (idem), trabalho este que implica na inscrição mental das vivências corporais.
A “pulsão” nos aparecerá como um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida de exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo.
Em outras palavras, frente ao acúmulo de excitações advindo das necessidades somáticas, a atividade psíquica se forja como recurso interno para lidar com esse acúmulo energético. Porém, para que isso ocorra, é preciso um conjunto de funções atreladas e um tempo de desenvolvimento das mesmas, cujo embrião encontra-se naquilo que Freud denominou vivência de satisfação.A vivência de satisfação é descrita por como um momento decisivo para o desenvolvimento das funções do indivíduo, dentre elas o pensamento, a atenção, a memória etc. É pertinente ressaltar que tal vivência ou experiência não se dá de uma única vez. Ela é repetida por diversas vezes até que possa ter sua eficácia garantida e seus efeitos só se consolidam no tempo do complexo de Édipo, sempre respeitando a lógica que Freud descobriu do a posteriori ou nachträglich.
A vivência de satisfação marca um encontro entre a necessidade do bebê, vivida no corpo, e a resolução do mal-estar. Diante dos estímulos do corpo, ele se põe a fazer movimentos reflexos motores, na tentativa de eliminar tais quantidades, mas, como apontado anteriormente, o movimento reflexo é inútil contra os estímulos internos. Assim, para que a satisfação apareça, faz-se urgente a entrada de um outro humano - Nebenmensch -, promotor da “ação específica” que cessará com o estímulo interno através de seus cuidados, cujos protótipos são a fome e o seio.
O encontro entre a necessidade e o outro culminará na cessação dos estímulos e uma experiência de intenso prazer. O que se produz nesse encontro (repetidas vezes) é uma facilitação mental ou trilhamento (Bahnung) entre um traço de percepção do objeto de satisfação e o traço mnêmico da necessidade corpórea, produzindo assim uma associação entre a necessidade e sua resolução. Na próxima vez que a necessidade se fizer premente, surgirá uma moção psíquica que buscará reinvestir a imagem de objeto para obter a satisfação via alucinação. Este é o início do trabalho psíquico supracitado, imposto pela pulsão: o trabalho que culmina na produção de uma representação do objeto de satisfação (sustentada pela experiência primeva) e, então, em seu reinvestimento diante da necessidade, caracterizando um movimento chamado desejo, que inicialmente produz uma satisfação alucinatória e autoerótica. A representação investida é o representante da pulsão no psiquismo.
Alcançar a identidade perceptiva significa investir tanto na representação a ponto de ela se confundir com a experiência mesma da satisfação com o objeto, o que leva Freud a dizer que essa satisfação inicial é alucinatória. Isso é possível porque a vivência de satisfação deixa uma marca, um traço mnêmico, uma marca imagética. Quando o mal-estar da ausência da mãe aparece, o aparelho é capaz de recuperar o traço, investindo em sua marca mnêmica, produzindo assim uma satisfação alucinatória.
No entanto, a alucinação levada às últimas consequências produz o movimento motor de sucção e esse movimento, que busca satisfação,
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apresentamos uma variedade de maneiras de recusar as perdas, que vão desde o luto propriamente dito a inibições e tentativas de recuperação narcísica que paralisam as escolhas de desejo. Todo nosso esforço foi para demonstrar o valor da castração enquanto motor dos movimentos desejantes que empurram um sujeito na vida, e que a referência à perda é responsável por manter o circuito do desejo ativo. Quando essa referência é reduzida, escamoteada, apagada, os efeitos são mortíferos; os sujeitos não sentem a vida passar, a memória fragiliza, a vida perde a graça.
O trabalho analítico deve ter no horizonte o objetivo de restaurar as relações da neurose com o vazio deixado pelo objeto, substituindo o vazio, que é ferida narcísica e paralisa, por uma referência ao vazio como causa do desejo e motor das atividades, possibilitando a satisfação das exigências pulsionais por vias menos tóxicas e mortíferas. Esse é o destino da cura analítica: assimilar a falta para fazer dela o âmago do ser, causa do movimento, chance, aposta. Para fazer uma aposta, é preciso contar com uma perda logo na saída: essa é a aposta do analista. O que uma psicanálise ensina? Que nesta vida quem perde, ganha.
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